terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Choque de Gerações


Um pai estava indignado porque seu filho havia furado as duas orelhas e, em uma delas, exagerou no alargador. Quando questionado o motivo de sua indignação, ele respondeu que se fosse apenas um furinho na orelha esquerda, tudo bem… mas as duas???

Bem, neste momento alguns leitores estão concordando com a indignação dos pai e outros, certamente se perguntando porque este assunto seria relevante para esta coluna, já que furar as orelhas é tão comum quanto usar um boné ou deixar os cabelos crescerem. A relevância está na diferença entre os pontos de vista que cada geração alimenta. Para explicar melhor o assunto, vamos viajar um pouco no tempo.

Meu avô, nascido em 1905, usava roupas sociais. Era quase impossível ele sair a rua sem chapéu, se barbeava todos os dias e carregava um lenço no bolso. Meu sogro, nascido na década de 40 tem um bigodão acoplado e provavelmente, sem ele eu não o reconheceria já que nunca o vi sem. O irmão dele, cerca de 10 anos mais jovem mantem uma cabeleira caprichosamente penteada para traz, lembrando o Elvis Presley. Tenho um primo da década de 60 que usa camisa ou camiseta sempre por dentro da calça, independente da combinação (a filha dele diz que até de pijamas ele se ajeita dessa forma). Um outro primo mais jovem, nascido nos anos 80, mantem ainda um cavanhaque milimetricamente acertado e sempre é visto de boné. O filho dele, de 18 anos, também usa bonés, mas com a aba reta e suas barbas são grandes e despojadas.

Tenho certeza que você identificou muitos dos seus familiares no parágrafo acima e acredito que as idades e costumes também são semelhantes, afinal cada geração viveu uma onda, uma moda diferente. Mas o detalhe que realmente chama atenção é que os costumes adquiridos na pós-adolescência permanecem por toda uma vida, a ponto de muitos simplesmente não conseguirem mudar. E como não mudam, eles têm também a dificuldade de aceitar a forma de agir e se vestir dos que vêm depois.

Nos anos 60, homens tinham cabelos curtos, na de 70 eles deixavam crescer, na de 90 usavam um brinco na orelha esquerda, na década de 2000 já furavam as duas orelhas e nos anos atuais aderiram aos alargadores e tatuagens. Tudo normal e aquilo que era um choque para uma geração se tornou corriqueiro para a outra. Aliás, enquanto os costumes dos jovens incomodam os seus pais, o costume dos veteranos são motivo de riso para a garotada. Nunca ninguém foi tão assertivo neste assunto como Renato Russo, que cantou que “você reclama que seus pais não lhe entendem, mas você também não entende seus pais”.

“Filhos, respeitem seus pais. Pais, deixem seus filhos viverem”. Se depois dessa nossa reflexão, você ainda é o jovem que se irrita com o comportamento atrasado dos mais velhos, desencana, porque a chance de acontecer a mesma coisa com você num futuro muito próximo é enorme. E se você é o pai que, apesar de tudo, insiste em implicar com o visual debochado do seu filho, também fique tranquilo porque essa decepção é comum e só acelera o seu processo de envelhecimento.

Publicado originalmente por Aguinaldo Oliveira, em Portal Novo Dia.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Mais jovem, mais inteligente e mais livre!


Acho muito interessante (pra não dizer: contraditório) o fato das pessoas esconderem suas idades. Percebo que se preocupam tanto com isso que não percebem a irrelevância da coisa. É claro que, do ponto de vista físico, ficamos mais vulneráveis conforme os anos se passam, mas também ficamos mais experientes e essa experiência tem tudo para ser boa.

Aceito perfeitamente que alguém deseje “parecer” mais jovem, mas mentir ou não dizer suas idades ao serem indagados não muda absolutamente nada em suas trajetórias. Ao contrário, até oculta um motivo pelo qual poderiam ser elogiados. Afinal, ter 40 anos e parecer 35 é um baita sinal de saúde e vitalidade.

Mais estranho é perceber que, generalizadamente, as mesmas pessoas que se incomodam com o passar da idade, demonstram sinais de ansiedade para chegar logo a sexta-feira, o final de semana, as férias ou o Natal. Principalmente se estiverem na expectativa de alguma coisa boa acontecer, vivem contando as semanas para chegar logo o grande dia e para então algo acontecer e ter as suas vidas resolvidas.

Essa ansiedade é perfeitamente compreensível, afinal quando sabemos que podemos fazer ou ter resultados positivos com nossas ações, logicamente queremos chegar a essas metas. Enquanto o tempo não passa, vivemos uma espécie de “Escafandro e Borboleta”, que já fez alusão a um filme de Julian Schnabel (2008) em que o personagem principal (uma vítima de AVC que perdera todos os seus movimentos) dizia que poderia visitar qualquer lugar do mundo em sua imaginação e, em função disso esperava o dia em que se libertaria daquele corpo sem movimentos.

Mas, voltando a pressa de ver o tempo passar, vale lembrar que é a mesma pressa que faz a gente ficar mais velho, coisa que incomoda a tantos. Tudo que queremos é o sentimento de sermos mais jovens, mais inteligentes e mais livres. Ideal seria que fôssemos também mais calmos e que conseguíssemos equalizar o desejo de avançar em nossas conquistas com a vontade de viver cada minuto, pois se não tomarmos cuidado, o tempo passa e a gente nem vê. E com a correria que vive hoje a humanidade, se tempo fosse dinheiro, estaríamos gastando um monte.

Por Aguinaldo Oliveira